Neste blog publico textos a respeito de livros e artigos que leio, cenas do cotidiano que observo, pensamentos que tenho, e matérias que me fazem sentir que merecem ser relembradas ou relidas de tempos em tempos.
Meu amigo Paulinho postou, em um grupo do whatsapp, um conjunto de fotos que retratam um pedacinho do litoral norte paulista - que há anos não visito. De imediato, ao ver as fotos, senti-me privilegiado por retomar consciência da existência de um lugar assim, ainda tão casto, não muito distante de onde moro. Ao olhar atentamente aquelas fotos, percebi que elas me falavam muito de uma ilha que (não) conheci, e que foram descritas por Henri Salvador e Maurice Pon no final dos anos 50. Tanto que, depois de ficar olhando as fotos, fiquei pensando no paraíso... e no Henri Salvador.
Foto: Paulo Sérgio
Nascido na Guiana Francesa, Henri Salvador viveu no Rio de Janeiro por algum tempo na década de 40, e depois aninhou-se na França. Morreu há alguns anos.
Foto: Paulo Sérgio
Pesquisadores musicais dizem que ele foi precursor da bossa nova. Não consegui enxergar seu trabalho, ainda, em conformidade com esse entendimento. Não sou, portanto, seguidor dessa corrente de interpretação.
Mas foi por um outro artista que cheguei mais perto do Henri Salvador: Caetano Veloso. Isso porque, em 1981, no álbum "Outras palavras", o Caetano gravou "Dans mon île" - música composta em 1957 por Henri Salvador e Maurice Pon. E desde que conheci essa gravação do Caetano, passei a juntar acordes para fazê-la soar com perfeição no meu violão - e sigo tentando até hoje.
Em "Dans mon île" Henri Salvador e Maurice Pon descreveram uma ilha paradisíaca, onde não se faz nada senão tomar banhos de sol e inspirar perfumes de amor... nessa ilha a vida flui com tranquilidade, e os jogos que se jogam ali são jogos de amor, jogos de Adão e Eva...
As fotos postadas pelo meu amigo são o retrato perfeito da ilha desenhada por Salvador e Pon, e ganharam um encanto maior quando foram examinadas por mim ao som de "Dans mon île", na interpretação do Caetano Veloso.
Cada uma das fotos postadas pelo meu amigo Paulinho é, na verdade, um belo retrato do paraíso.
CLIQUE NO LINK PARA OUVIR
Caetano Veloso - Dans mon île
https://www.youtube.com/watch?v=KwzV08UFO9Y
Dans mon île
(Henri Salvador/Maurice Pon)
Dans mon île
Ah comme on est bien
Dans mon île
On n'fait jamais rien
On se dore au soleil
Qui nous caresse
Et l'on paresse
Sans songer à demain
Dans mon île
Ah comme il fait doux
Bien tranquille
Près de ma doudou
Sous les grands cocotiers qui se balancent
En silence, nous rêvons de nous
Dans mon île
Un parfum d'amour
Se faufile
Dès la fin du jour
Elle accourt me tendant ses bras dociles
douces et fragiles
Dans ses plus beaux atours
Ses yeux brillent
Et ses cheveux bruns
S'eparpillent
Sur le sable fin
Et nous jouons au jeu d'Adam et Eve
Jeu facile
Qu'ils nous ont appris
Car mon île
c'est le paradis
Na Minha Ilha
Na minha ilha
Ah! Como a gente fica bem
Na minha ilha
A gente não faz nada
A gente se dora no sol
Que nos acaricia
E a gente se espreguiça
Sem sonhar com o amanhã
Na minha ilha
Ah! Como é doce!
Bem tranquila
Perto da minha querida
Embaixo dos grandes coqueiros que balançam
Em silêncio nós sonhamos com nós mesmos
Na minha ilha
Um perfume de amor
Se dispersa
Desde o fim do dia
Ela corre em minha direção estendendo seus braços doces
Com quase 8 bilhões de habitantes, muita gente passa por este planeta sem deixar suas marcas ou sua memória no coração das pessoas. Há muitos que permanecem por algum tempo, mas poucos são aqueles que, independentemente do passar dos anos, ou até mesmo dos séculos, já tendo partido, continuam sendo tema de debates e de rodas de conversa, como se fossem faróis a indicarem rumos para serem seguidos e, periodicamente, reformulados. É o caso de Jesus Cristo, Maomé e Lutero, na religião; de Sócrates, Platão e Voltaire, na filosofia; Einstein, Pasteur e Marie Curie, nas ciências; Alexandre, Mandela e Washington, na política; Beethoven e Bach, na música; Van Gogh, Monet e Picasso, na pintura; Shakespeare, Dostoievski e Garcia Marquez, na literatura. Aqui no Brasil também temos exemplos assim: Rondon, Darcy e os irmãos Villas-Boas, indigenistas; Villa-Lobos e Tom Jobim, na música; Portinari e Di Cavalcanti, na pintura; Machado de Assis e Clarice Lispector, na literatura; Pelé, no futebol... e tantos e tantas outras, em diversos outros campos.
Mas para mim, especificamente, aqui do Brasil, uma das celebridades que é constante em meus pensamentos e em minha inspiração é o poeta Vinícius de Moraes.
Foi pensando nele, no Vinícius de Moraes, que na semana passada fui à música popular brasileira pesquisar canções que, literalmente, mencionam o seu nome, ou mesmo que façam alguma referência a ele utilizando formas carinhosas tais como "poeta" ou "poetinha".*
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Vinícius no plural: samba poesia e carnaval (samba concorrente) União da Ilha, Carnaval 2013
https://www.youtube.com/watch?v=g-Fx6D-V3A8
Logo no início das pesquisas me revi ainda criança, cantando, com o Jongo Trio na vitrola e com o meu pai ao meu lado, a namorada que o Baden Powell e o Lula Freire sonharam ter - em "Feitinha pro poeta":
"Ah quem me dera ter a namorada que fosse para mim a madrugada, de um dia que seria a minha vida (...) que seja na medida, e nada mais, feitinha pro Vinícius de Moraes (...)";
Mas como nem sempre a namorada que se imagina ter é tal qual aquela que se idealiza, a Elis cantou as afirmações feitas pelo mesmo Baden Powell, juntamente com o Paulo César Pinheiro, em "Falei e disse", quando deixam bem claro que tal qual a namorada sonhada pelo Vinícius, é difícil de se encontrar:
"mulher, se Deus não criasse você, ele próprio custava crer; mas só que tem, que não dá pé você ser a mulher de quem Vinícius falou" (em "Falei e disse").
O Chico Buarque e o Toquinho não deixaram por menos: nos anos áureos das grandes apresentações em ginásios de esportes e teatros de arena, eles homenageavam o poeta com pedidos de desculpas pela composição improvisada... anunciando o ingresso do poeta nos palcos onde se apresentavam:
"Poeta, poetinha vagabundo, quem dera todo mundo fosse assim feito você, que a vida não gosta de esperar, a vida é pra valer, a vida é pra levar, Vinícius, velho, Saravá!"
E assim chamado, o poeta com o copo cheio de uísque, oferecido aos céus, ingressava nos palcos da vida, dançando e sorrindo, sob aplausos das plateias por ele encantadas.
No período do "Brasil grande", do "ninguém segura este país", o compositor Benito di Paula dirigiu-se ao "Charlie Brown", personagem de histórias em quadrinhos de muita má sorte, mas dotado de inesgotáveis esperanças e determinação, oferecendo-se para mostrar a ele o Brasil, suas belezas, e todas as marcas de sua cultura. Nestes termos, dirigindo-se ao Charlie Brown, Benito di Paula mencionou o poeta:
"Se você quiser, vou lhe mostrar, Vinícius de Moraes e o som de Jorge Ben; se você quiser, vou lhe mostrar, Brasil de ponta a ponta, do meu coração"
A banda Língua de Trapo, com seu trabalho marcado por humor e crítica social, também colocou o Vinícius em sua música e, parodiando o "Soneto da Fidelidade", assim cantou em "Balada Cibernética", composta por Carlos Melo e Cassiano Roda:
"De tudo ao meu computador serei atenta, antes, e com tal zelo, e sempre e de modo terno, que mesmo diante de um modelo moderno, dele serei sempre a tieta mais sedenta (...) Que não seja imortal, posto que é fabricado em Manaus, mas que seja infinito enquanto dure a garantia"
Chico Buarque, inspirado pelo sopro do maestro soberano, Antônio Carlos Jobim, quando compôs "Paratodos", prescreveu o poeta contra algumas das mazelas da vida:
"Vi cidades, vi dinheiro, bandoleiros, vi hospícios, moças feito passarinho, avoando de edifícios, fume Ary, cheire Vinícius, beba Nelson Cavaquinho"
Em 2013, mais de trinta anos depois da partida do poeta, a Escola de Samba União da Ilha, com o samba enredo escolhido: "Vinícius no plural. Paixão, Poesia e Carnaval" (composta por Ginho, Júnior, Vinícius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra), ao desfilar pela Avenida Sapucaí, no Rio de Janeiro, fez toda a plateia nas arquibancadas perguntar cantando:
"Onde anda você, 'poetinha', saudade mandou te buscar, a Ilha é paixão na Avenida, mais que nunca é preciso cantar"
Muitos outros sambas, tendo Vinícius como tema, foram compostos para concorrerem na seleção do samba-enredo da Escola de Samba União da Ilha para aquele mesmo concurso de carnaval. E foram sambas muito bons. Um deles, composto por Franco Cava, Muri Cova e outros, dizia o seguinte:
"Quando a luz dos olhos teus, seduz o luar! a noite vai se apaixonar! estrelas! derramem pra mim! Na mesa de um bar, poemas sem fim! Vinícius, paixão imortal! É o show da Ilha nesse Carnaval!"
E como se tudo isso já não bastasse, José Messias, morrendo de paixão, e inspirado pelo poeta, pediu emprestado o olhar, a boca, o sorriso e as mãos de uma mulher, por ele amada, para que ele pudesse sentir a vida:
"Empresta o seu sorriso, e eu te darei o céu se for preciso... empresta (...) Estou apaixonado, como quem precisa ouvir Vinícius de Moraes cantado por Maysa"
Não creio que as lembranças e as homenagens ao poeta tenham parado por aí. Vinícius continua inspirando compositores e escritores, aquecendo ou fazendo bater forte corações apaixonados e, especialmente, promovendo em torno de seu nome e de sua obra a reunião de seus leitores, admiradores e amigos espalhados por todos os cantos do mundo - e nesse grupo, com muito prazer, eu me incluo!
___________________________
*Caso você, meu amigo leitor, consiga se lembrar de alguma outra canção de compositor, que não o Vinícius, que mencione o seu nome, e que não conste aqui, conte pra gente.
- Depois de publicado este texto, encontrei "Nossa homenagem", do Benito di Paula - um sambinha muito legal
“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas as margens que o oprimem”.
(Bertold Brecht)
(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("Sinceridade" - João Bosco - do disco "Bosco", 1989)
Viajar para Minas é deixar o olhar se perder no horizonte - muito embora, às vezes, o horizonte não passe de um morro à nossa frente. A gente vai passando por cidadezinhas, lugarejos e povoados na beira da estrada, subindo e descendo estrada e, inevitavelmente, sente o Monteiro Lobato cutucar a mente da gente com o título de um de seus livros: “Cidades Mortas”.
É certo que cada cidade tem seu ritmo próprio, sua pulsação própria, seus personagens próprios – tal como todas as outras cidades pequenas em qualquer parte do Brasil. Mas, olhando assim, de dentro de um carro em movimento, as cidades e seus habitantes parecem parados, distantes, como se estivessem reverenciando a nossa passagem. Por esse motivo, ao cruzar com algum andarilho pelas estradas buzino e aceno, na expectativa de que esse aceno promova vida e seja retribuído – e, no mais das vezes, é.
Em uma das minhas viagens, perdido em pensamentos assim, a rodovia me conduziu para dentro de uma cidade cujo desenvolvimento deu-se às margens de um rio. Uma ponte sobre ele liga as duas partes da cidade, e uma balaustrada com palmeiras na calçada acompanha o seu curso. Ponte Nova! Cidade de Ponte Nova.
(Ponte Nova, MG - fonte: pontenova.mg.gov.br)
Fiquei tentando me localizar na cidade, mas achei isso muito estranho. Nunca havia estado ali. E porque fazia essa tentativa? Algo naquele lugar me parecia familiar: a ponte, o rio e o curso das águas me levavam de volta a uma entrevista em um programa de televisão visto havia muitos anos. Não me lembro quando, nem tampouco qual era o programa. Nele, o João Bosco[i] falava de sua vida e de sua cidade natal: Ponte Nova.
Engraçado como as coisas adquirem um outro significado quando a gente encontra nelas algum elo de ligação. Pois o João Bosco, pela sua entrevista, havia se tornado o meu vínculo com Ponte Nova. Nos seus comentários ele falava de algumas de suas composições e, especificamente, apresentava uma versão sua para o bolero “Sinceridad”[ii]. Ele contava que sua letra para a versão foi inspirada na imagem do curso manso das águas do rio Piranga - que cruza Ponte Nova - e na observação de algumas lavadeiras que nos finais de tarde cantarolavam às suas margens.
Como era ainda final de tarde e eu estava às margens do rio Piranga, não resisti: dei meia volta no carro e saí à procura das lavadeiras de beira de rio sobre as quais o João Bosco havia falado... Para mim isso tudo parecia fantasia. Mas não é que logo eu as vi, de verdade, nas margens do rio!?!? O imaginário fundiu-se com o real. Desci do carro e, por alguns instantes, cantando mentalmente o bolero, fiquei olhando o rio e as lavadeiras.
Depois voltei para o carro e segui viagem contente, guardando a cidade, o rio e as lavadeiras nas minhas histórias de vida.
Sempre que passo pela ponte sobre o rio Piranga, na cidade de Ponte Nova, olho para ambos os lados e digo para mim mesmo que em algum lugar nas margens daquele rio algumas senhoras cantarolam enquanto lavam roupas - tal como a lavadeira na lagoa do Abaeté, na Bahia, na canção do Dorival Caymmi (“A lenda do Abaeté” – 1954).
No começo dessa semana, debaixo de chuva, passei por Ponte Nova e vi a cidade inquieta. Os habitantes estavam assustados olhando o rio que havia subido ao nível da calçada e estava na iminência de transbordar - como de fato transbordou. Tudo isso foi mostrado nos jornais de televisão. As imagens vistas não foram nada boas, as águas não eram nada mansas, parte da cidade ficou alagada, não havia nenhuma lavadeira.
Apesar disso, do conforto da poltrona de casa onde me encontro, revejo o rio enquanto ouço o bolero: neles estão, inarredavelmente, as águas mansas e as lavadeiras. Afinal, “as coisas não estão no espaço; as coisas estão é no tempo (...) e o tempo está é dentro de nós”[iii].
[i] João Bosco – compositor, violonista e cantor de MPB
Baalbek sempre foi, para mim, um aperto no peito, um afeto distante, um sentimento inspirado pelas imagens existentes em um anel dourado e negro, exibido no dedo anular da mão esquerda do Sr. Houssain - um imigrante libanês que viveu na minha terra natal e que, carinhosamente, dirigia-se a mim chamando-me "Beduíno"... Baalbek também foi o olhar impreciso do jovem libanês Chafic que, então recém chegado à minha cidadezinha, declamava versos de Khalil Gibran e procurava cuidar de sua própria construção.
CLIQUE NA SETA PARA OUVIR E ASSISTIR
Ruínas de Baalbek
https://www.youtube.com/watch?v=dgxN5SgEQv0
Além da estampa no anel do sr. Houssain ou do olhar distante do Chafic, Baalbek é uma cidade fenícia situada a Noroeste de Beirute, capital do Líbano, e que remonta a muitos anos antes de Cristo. Os romanos a conquistaram, também e ainda, antes de Cristo. Como meio de demonstrar ao Oriente, naquela época, o poder de sua cultura, os romanos nela construíram grandes templos - o maior complexo de templos daquele Império, os quais foram, depois, destruídos por terremotos. No local onde suas ruínas se encontram, um dos festivais culturais mais importantes do Oriente Médio é realizado anualmente, desde 1955: o Festival Internacional de Baalbek.
Hoje assisti, ao vivo e on line, a transmissão desse Festival. A região libanesa denominada "vale do Bekaa", onde Baalbek está localizada, trouxe-me de volta o anel do sr. Houssain e o olhar impreciso do Chafic. Isso porque, hoje, veio de Baalbek uma voz, um canto, uma ligação do homem com a eternidade... As apresentações no espetáculo trouxeram a expressão da força da cultura libanesa... Guitarras, tambores, instrumentos de sopro, teclados... Baalbek foi hoje a voz da humanidade, a voz de uma nova geração que visitou seus antepassados, que se reinventou, que se levantou, e que mostrou a genialidade criativa do povo daquele país... daquele país que cabia, por inteiro, no anel de um imigrante, e no olhar de um desbravador.
(Pink Floyd - "Don't leave me now" - trecho do filme "The Wall")
https://www.youtube.com/watch?v=NDNnvxoPPJg
O que houve, coração? Cansaste? Estiveste tão distante. Para onde foste? Porque me abandonaste? Fiquei aqui, nessa sala fria, deitada, meu calor minguando... Por algumas frações de segundo estiveste afastado de mim. Ao meu lado, à medida que meu cansaço aumentava, algumas vozes desesperadas iam perdendo a intensidade. Onde estiveste quando te procurei? Onde estiveste, coração, naquela hora?
Na sua ausência, uma pressão compassada, forte e desesperada, tomou conta do meu peito, trazendo-me a sensação de que alguém te procurava. Sem sentir o seu ritmo, coração, não tendo o que dizer, permaneci calada. Eu nada sabia informar a seu respeito.
Porém, aos poucos percebi que voltaste. Teria sido por compaixão? Por indecisão? Atendeste ao chamado daquelas mãos que me pressionavam. Passei a ouvir novamente, ao meu redor, aquelas vozes que sugeriam, naquele momento, alívio com o seu retorno.
Eu, porém, depois de um breve espasmo, permaneci calada, imóvel. Senti-me fraca e desamparada com a sua ausência. Enfraquecida, nada mais conseguia elaborar, a não ser perguntar calada, a mim mesma, para onde tinhas ido, porque havias desistido de mim.
Por muitos anos suportaste comigo toda sorte de sentimentos. Seu ritmo, incansável e companheiro, sempre fora determinante em todos os meus passos. Eu, porém, nunca havia me dado conta de que estavas ali, fiel e companheiro, e que também necessitavas de minha atenção...
Egoísta, creio não ter te tratado com a intensidade de carinho que tu necessitavas. Creio que muitas vezes abusei de ti, exigi em excesso, e te causei desgosto. Fiz com que sofresses por pequenos rancores, por tolas ilusões e questões insignificantes. Porém, nunca poderia imaginar que assim, de repente, sem qualquer advertência prévia, pudesses desistir de mim, me deixar tão fria e só.
Nunca mais me abandones, coração. Haverá um dia em que seu cansaço vai me fazer compreender que precisas partir. Porém, ainda é muito cedo, ainda há muito o que fazer. Preciso da sua companhia, da sua alegria, do seu ritmo quente, compassado e constante. Não me deixes, não me abandones... Fique comigo até que nos sintamos cansados juntos, até cairmos exaustos de vida, até que nossos anseios sejam todos eles consumados. _________________________________ *Considerações hipotéticas em relação aos pensamentos de uma jovem amiga que, enquanto submetida a um procedimento cirúrgico de baixo risco, sofreu uma parada cardíaca (e hoje, recuperada, do outro lado da tela, com um copo de uísque em uma das mãos e um cigarro na outra, saudou-me com um sorriso no rosto).
"Eu canto o peito ilustre lusitano a quem neptuno e marte obedeceram"
Monumento a Camões - detalhe
Foto: acervo pessoal
"Cessem do sábio grego e do troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta."
(Camões, "Os Lusíadas" - Canto I)
(PARA OUVIR, CLIQUE NA SETA)
"Fado Tropical" - Chico Buarque/Ruy Guerra
https://www.youtube.com/watch?v=NfjaFMah7sE
Não, não é uma praça árida e oprimida na região central de Ribeirão Preto. Em cada um de seus quatro pontos cardeais o cimento e o concreto dos prédios com ela contrastam e digladiam. Ela resiste. Ela tem como escudo suas plantas, suas árvores antigas, e seus passeios tomados por folhas secas. Na escuridão da noite, cuida de sua proteção a luz que emana dos pequenos postes - verdadeiros faróis plantados em seus canteiros. Eu a cruzo todos os dias, e me sinto um privilegiado por tê-la como vizinha.
Praça Luis de Camões - Ribeirão Preto/SP
Foto: acervo pessoal
Não, decididamente não é apenas uma praça. Com um monumento a Camões e aos portugueses ao seu centro, ela é uma inspiração a quem quer que por ela passe.
Monumento a Camões e aos portugueses - Praça Luis de Camões, Ribeirão Preto/SP
foto: acervo pessoal
Nesse monumento Camões, altivo e altaneiro, guia os destinos incertos traçados pelo comandante de uma caravela. Embarco nessa nau portentosa que singra mares e oceanos - assim como fizeram os portugueses nas grandes navegações. Os canteiros da praça, então, transformam-se em cardumes; e seus farois em pequenas embarcações. Vou da popa à proa vigiando suas sombras e seus caminhos.
"Vou da popa à proa vigiando suas sombras"
Foto: acervo pessoal
Em seus bancos de madeira, jovens distraídos e senhores compenetrados são valentes guerreiros que cuidam para que ela resista às tormentas que teimam em transformar a cidade.
"Em seus bancos de madeira..."
Foto: acervo pessoal
O poeta tornou-se o guia que, na praça, cuida da condução de seu povo - e da minha travessia. Nessa navegação contorno o sudoeste de Portugal e o sul da Espanha. Vou além: passo pelo estreito de Gibraltar e sigo pela costa de Marrocos, na África, até atingir o Cabo Bojador no Saara Ocidental. A partir dali experimento mares nunca d'antes navegados... O monumento aos portugueses, homenageando Camões, domina toda a praça. Camões lutou no norte da África (onde perdeu a visão do olho direito), fez muitas viagens, naufragou na foz do rio Mekong, reapareceu em Moçambique e retornou a Portugal para morrer, em 1580, em condição de extrema pobreza. Ficou conhecido na história e na literatura como o autor do maior poema épico da língua portuguesa - "Os Lusíadas", publicado há mais de quatro séculos.
Ao cruzar a praça que leva seu nome eu reverencio Camões e as viagens que, nessa travessia, inspirado por ele, diariamente faço.
(Em homenagem ao meu amigo Wilson Flávio, no dia de seu aniversário de nascimento, republico um texto postado no meu blog anterior, há dez anos - 13/05/2011)
Há datas que nunca esquecemos. A cada ano, naquele mesmo dia específico, alguma lembrança, algum sentimento sempre nos acompanha. Seja Natal, Ano-Novo, Independência do Brasil, aniversário de parente, amigo, filho, esposa, não importa: cada data que nos é importante inspira uma reflexão e uma expectativa diferente.
(CLIQUE NA SETA PARA OUVIR ENQUANTO LÊ)
("ODESSA" - do álbum "Odessa" - 1969 - The Bee Gees)
https://www.youtube.com/watch?v=jfp2XeBPb0g
Creio que o dia mais significativo para cada um de nós seja o dia do nosso aniversário de nascimento. Em geral acordamos esperando os cumprimentos dos familiares, dos amigos, das pessoas que gostam da gente. E, além dos cumprimentos que recebemos pessoalmente, também esperamos muito os telefonemas intercalados no dia, aquelas vozes que vêm de longe expressando qualquer coisa pelo simples prazer de falar conosco, de nos trazer uma boa mensagem. Gosto especialmente dos telefonemas não protocolares, daqueles que a gente conversa amenidades, sem medo dos silêncios na fala, independentemente de ser aniversário ou não. Muitas vezes, no dia do meu aniversário, faço o que me agrada: tomo a iniciativa, ligo para as pessoas de quem gosto, e digo que é só para conversar, sem mencionar a data. E, se me felicitam, ótimo!; se não o fazem, não tem importância, pois a simples existência dessas pessoas faz bons os meus dias.
Hoje, especificamente, é uma dessas datas que me são importantes: dezoito de maio, dia do aniversário do meu amigo Wilson Flávio. Não sei quantos anos ele faz, mas isso não importa. Nem sei direito onde ele está morando, e nunca o encontro quando ligo para ele porque o número de seu telefone está sempre sendo alterado. Mas isso também não importa. O que me importa é que toda vez que o vejo nos abraçamos com a mesma amizade de sempre e conversamos assuntos inesgotáveis, como se tivéssemos apenas dado uma pequena pausa no tema de nossa conversa anterior.
Aos meus amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos, humildemente peço: se virem o Wilson Flávio - o "Big Boy" -, digam a ele que sua amizade me é importante, e que eu o abraço no seu dia com o mesmo carinho e consideração de sempre.
Hoje, treze de maio, estaríamos comemorando o 108º aniversário de nascimento do Juan. Ao me lembrar dele reli uma biografia sua que se encontra nos arquivos da Câmara Municipal de Guará, e da qual, a pedido, uma cópia me foi enviada muito gentilmente pelo meu amigo Cesinha. Não consta, na biografia, o nome de seu autor. Esta biografia foi juntada a um projeto de Decreto-Legislativo, o qual resultou na concessão do título de "Cidadão Guaraense" ao Juan, em março de 2008.
Juan, casado em segundas núpcias com minha mãe, faleceu em Guará, SP, aos 96 anos de idade, no dia primeiro de maio de 2009.
A seguir transcrevo, literalmente, a biografia apresentada em 2008.
CLIQUE NA SETA PARA OUVIR
Arturo Gatica - Silencio (Gardel, Lepera e Pettrorossi
https://www.youtube.com/watch?v=LKCmjP8VLAg
"O pintor e escultor Juan Rocasalbas
Tura, dentro de sua trajetória artística desde a sua infância, a primeira idade
de estudos na Espanha, até seu desenvolvimento posterior na Argentina, representa
uma expressão peculiar, de amplas experiências plásticas no mural, nos monumentos
públicos, na estátua e no quadro.
"Juan Rocasalbas é herdeiro de uma larga tradição artística europeia.
"Ele
nasceu numa região da Espanha, a Catalunha, no Nordeste da Península Ibérica,
na qual as influências dos estilos tradicionais do romântico, do gótico, do
barroco, conjuntamente com uma mente muito pesquisadora e atualizada,
representada por nomes como Picasso, Nomell, Miró, Tapies e muitos outros que
nasceram e cresceram na Catalunha, fazem de um ser com inquietude artística, um
predestinado ao ecumenismo mediterrâneo, pleno das aportações gregas, romanas,
bizantinas e também propicia sua ligação intelectual com os restantes países da
Europa, pela proximidade da Catalunha com a fronteira da França, Suíça e
Itália.
"Com
uma vida intensa de obras gigantescas, nestes últimos anos, Juan deseja um repouso
e uma reconsideração de suas atividades.
"Em
1980 muda-se para Guará, uma pequena cidade no norte do Estado de São Paulo,
junto com sua senhora, natural da região, e divide seu tempo com longas
estadias em seu apartamento em Buenos Aires, junto a famosa Rua Corrientes, e
aos poucos recomeça uma nova etapa de forma modesta, e quase incógnita.
"Retorna
à pintura, desta vez com as paisagens da Alta-Mogiana, seus tipos e cores.
"Faz
escultura isolada e, mais que nada, volta a pesquisar uma nova fase, numa
homenagem a sua vida atual, resolvendo a verdade de uma obra plástica acumulada
em tantos anos. Em obras tranquilas, de autossatisfação inegável, inspirada na
madura contemplação, e com a clara imagem de sua atividade não sujeita a
pressas, a viagens cansativas, exaustivas.
"Agora,
este espanhol-argentino-brasileiro, convertido por tantos trabalhos e
experiências, obtém o melhor ganho, o carinho e a amizade de todos que o
cercam, apreciadores de sua arte, recolhendo na magia das cores serenas de seus
quadros, a verdade do seu entorno e sua vida.
"É
ainda de se esperar de Juan Rocasalbas Tura surpresas, revelações para a arte
brasileira, já que se espera dele que comece seu ciclo de exposições.
"Já sem pressa, mas também sem pausa, como no famoso lema de Goethe, Juan
Rocasalbas Tura vai nos transmitindo suas verdades plásticas, sempre renovadas
e eternas.
"Juan
Rocasalbas Tura nasceu no dia 13 de maio de 1913, na pequena cidade de San
Feliu de Codinas, perto de Barcelona, na Espanha. Foram seus pais: Francisco
Rocasalbas e Natividade Tura.
"Desde
criança desenhava paisagens de sua Catalunha natal, os campos, os pastos, os
animais, os caminhos que o levavam à escola, às vezes alertado pelo professor
para dar mais atenção às lições, pois o desenho fazia com que se esquecesse até do
lugar onde se encontrava, enchendo páginas e mais páginas dos cadernos de
deveres com rabiscos ainda incipientes, mas já cheios de verdade, de um traço
firme e uma atenção de especial caráter de sua região.
"Depois
de alguns anos chegou a ser autorizado por seus pais a frequentar cursos livres
da escola Masana, em Barcelona, de longa tradição nas artes plásticas catalanas.
"Logo
então definiu suas preferências de tons de cores quentes misturadas com sentimentos
e que até hoje domina suas paisagens.
"Juan
estudou por pouco tempo e partiu com seus pais para a florescente República Argentina.
Era o ano de 1931, e Buenos Aires já, naquela época, era uma referência
cultural máxima dentro da América do Sul.
"Uma
imigração intensa, de bom nível social e de uma grande comunidade de trabalho,
tinha criado um país praticamente sem analfabetismo, onde as ciências e as
artes, junto com uma agricultura, comércio e indústria de grande importância,
começavam a espalhar sua influência e presença pelo mundo. O jovem Juan se
integrou imediatamente naquele ambiente.
"Ao
mesmo tempo que ajuda seus pais nos negócios da família, que prosperava junto
seu país de adoção, no comércio e em atividades imobiliárias, pinta paisagens, doando seus trabalhos à família e amigos.
"Em
1942 casa-se com Esther Amestov, filha de franceses, que o incentivou a
continuar seus estudos artísticos. Muitos anos depois, em 1952, parte com sua
esposa e duas filhas - Alícia e Cristina – para o Brasil, chegando ao Rio de
Janeiro. Alterna suas atividades comerciais e serviçais introduzindo na cidade
os primeiros sistemas modernos de alarmes contra roubo, sempre acompanhando e
participando dos movimentos artísticos da época, e vai captando o ambiente
plástico brasileiro, introduzindo em suas obras alguns elementos, cores e
formas tropicais, uma maior exuberância e uma certa animação colorida, ainda
que sempre teve sua preferência cromática que o acompanharia até
nas obras atuais.
"Nessa
época, torna-se amigo de um jovem artista espanhol, Julio Espinosa, recém
chegado ao Rio de Janeiro, e com quem começa a executar diversos murais, em
pintura e escultura, para o Sindicato dos Aeroviários, Vogue, Olga e outras
empresas comerciais.
"Juan
Rocasalbas acompanha este trabalho e se contagia do gosto pelos grandes
espaços.
"Executa,
já naqueles anos cinquenta, vários trabalhos com Julio Espinosa no Brasil e no
exterior. Alguns anos depois Julio volta para a Espanha e Juan fixa-se
novamente em Buenos Aires, com atividades artísticas, mas já com a
característica dos grandes espaços.
"Em
1972 Juan faz uma viagem à Europa encontrando-se com Julio Espinosa em Madri,
na Espanha, incentivando-o a voltar ao Brasil, sendo que nove meses depois Juan
e Julio estariam novamente juntos, agora em uma fase de muito êxito não só no
Brasil, como também no exterior.
"Em
1976 faleceu sua esposa Esther, e Juan continua seus trabalhos por mais quatro
anos, para finalmente tomar novos rumos.
"Em
11 de setembro de 1980 casou-se novamente com Therezinha Deise Prado Antônio,
que o incentivou a realizar novos trabalhos.
"Juan
Rocasalbas Tura fez muitos quadros que foram presenteados a todos de sua
família e a vários amigos, mas seu sustento estava nos murais e esculturas.
Somente no Rio de Janeiro estão mais de 50 grandes obras, como na Caixa Econômica
Federal na Av. Barão do Rio Branco, a ECT da Av. Presidente Vargas, com murais
de mil metros, as obras do Banco do Brasil, Banerj, o shopping da Gávea,
Shopping Vanesa do Leblon, sede da Loteria Federal, Igreja de São Judas Tadeu
de Niteroi, e grandes edifícios nas construtoras João Fortes, Moura Matta,
Valparaiso, Concal etc.
"Fora
do Rio de Janeiro, obras como ECT de Brasília, Grandes Edifícios de São
Paulo, e mais uma grande quantidade de prédios nesta e em outras cidades têm a
marca do grande artista.
"Muitos
trabalhos e técnicas foram levados a Nova Iorque, com os murais de Park Avenue
do Banco Comind de São Paulo, do Banco Interseco de Panama, com obras inéditas
neste país com até 28 murais num só edifício, e um dos maiores monumentos, com
14 metros de altura, do Panamá, num gigantesco relógio-escultura.
"Depois
volta à Europa, passando pela terra natal onde pinta paisagens de San Feliu de
Codinas, dedicando e doando seus trabalhos aos seus conterrâneos que havia
muito não encontrava.
"Hoje
Juan passa horas pintando e dedicando-se a suas novas amizades e a seu novo lar
– Guará. Contudo, tem plena consciência de que jamais teria chegado ao que é se
não tivesse tido contato, com auxílio de amigos, como o grande pintor e
escultor Julio Espinosa, não só melhorando seus conhecimentos, como também tendo recebido dele as maiores atenções e os melhores conselhos, e também do
pintor surrealista José Américo Nogueira, fica rendido o reconhecimento de
Juan Rocasalbas Tura."
("Flores para as mães" - entrada de um supermercado, véspera do dia das mães - foto: acervo pessoal)
Oi, mãe.
Passei pelo supermercado há pouco e o vi colorido de flores. Achei muito bonito todas aquelas cores alegrando o movimento das pessoas. Em especial gostei de observar gente de todas as idades: algumas delas levando uma flor em um vasinho envolto por um arranjo muito bem feito. Como hoje é comemorado o Dia das Mães, fiquei pensando no sorriso que um pequeno gesto de entrega de uma flor pode fazer nascer no rosto de uma mãe que a recebe.
Essa pequena observação, transcorrida em um curto lapso de tempo, me fez acreditar que, para os filhos, mãe não tem idade. O tempo das mães, para os filhos, é administrado pelas próprias mães; é medido pelos sorrisos que elas são capazes de dar e pela alegria que demonstram ter.
(CLIQUE NA SETA PARA ASSISTIR O VÍDEO)
(Luciano Pavarotti - "Mamma", de Bixio)
Então, mãe, vai aí um supermercado inteiro de flores. Sua face e sua alma rejuvenescem a cada sorriso que dá. Eu e minha irmã ficaríamos muito contentes em ver um sorriso seu por cada uma dessas flores. Pelo seu Dia - o das Mães -, te oferecemos todas elas. Agradecidos por tudo, retribuímos da mesma forma: com todos os sorrisos de alegria por tê-la conosco.
Um beijo meu.
("Minha mãe na sala de visitas de sua casa" - foto: acervo pessoal)